Hume, o Século 18, o Iluminismo e a Modernidade

Os 65 anos da vida do escocês David Hume cobrem dois terços do século 18. Ele nasceu em 1711 (7/5) e morreu em 1776 (25/8). Nos dois casos, em Edinburgh. Sua morte se deu cerca de seis meses depois da publicação de A Riqueza das Nações, obra prima de seu melhor amigo, o também escocês Adam Smith, e um pouco menos de dois meses depois da Independência Americana, que ele acompanhou com interesse e simpatia, e que produziu aquela outra obra prima, The Declaration of Independence (A Declaração de Independência), oriunda principalmente da pena de Thomas Jefferson.

Os historiadores gostam de rotular eras e períodos. Eles dão ao século 18 diversos nomes: The Enlightenment, Siècle des Lumières, Die Aufklärung, O Iluminismo, O Esclarecimento… Todos esses nomes têm algo em comum: a ideia de luzes: luzes que iluminam o caminho, luzes esclarecem as ideias, forçando-nos a jogar algumas fora (desaprender) e construir outras (aprender). Para aprender, não raro é preciso desaprender antes, jogar ideia fora — fazer uma faxina na nossa mente. Esse é um princípio muito negligenciado. .

Considero um erro lamentável de classificação e periodização histórica dizer que a chamada Era Moderna, que seria a Idade das Luzes, começou em meados do século 15 (por volta de 1450-1455, por aí), tendo aparecido em substituição à chamada Era Medieval, que teria sido a Idade das Trevas.

Há muitos equívocos por detrás dessa classificação / periodização.

Em primeiro lugar, e antes de mais nada, a Era Medieval não foi nenhum período de trevas. Ela começou com Agostinho de Hipona, passou por Tomás de Aquino, e, chegando mais ao fim, teve William de Ockham (cuja “navalha” é aplicada até hoje) — todos eles intelectuais da melhor estirpe, lidos e admirados até hoje. Agostinho e Tomás são considerados dois dos cinco maiores pensadores da filosofia/teologia cristã, ao lado, talvez, de João Calvino, Friedrich Schleiermacher e Karl Barth (e Barth reconhece que Schleiermacher foi maior do que ele). Foi na Era Medieval que surgiram as primeiras universidades europeias, as de Bolonha (1088), Oxford (ca. 1096), Paris (1170), Módena (1175), Cambridge (ca. 1209), Salamanca (1218), Coimbra (1290), etc.. Duas nessa lista são ibéricas. (O Brasil só teve a sua primeira real universidade em 1934, e mesmo assim com professores importados). Os séculos 12 e 13 são designados por muitos historiadores como “O Renascimento dentro da Idade Medieval”. Apesar de não haver editoras e gráficas na época, foi na Idade Média que Dante, Marco Polo, Chaucer escreveram… Entre os filósofos/teólogos, além dos três já mencionados, que marcam (mais ou menos) seu início, meio e fim, temos Anselmo de Canterbury, Pedro Abelardo,  Pedro o Lombardo, Alberto Magno, Roger Bacon, Duns Scotus, Marsílio de Pádua, Maimônides, Avicena, Averroes, etc. Diferentemente das Universidades, o filósofos/teólogos não estão em ordem cronológica.

Em segundo lugar, e mais importante, se alguma era deve ser chamada a Idade das Luzes, a era que promoveu um real rompimento com o período que veio antes, é aquela que começou no século 18, não a que coomeçou no século 15 (com a queda de Constantinopla nas mãos dos Turcos, a Invenção da Imprensa, o Renascimento) ou no século 16 (com a Reforma Protestante — mais uma divisão importante do Cristianismo, a outra tendo acontecido em 1054, com a divisão da Igreja, supostamente Una e Universal, em Igreja Ocidental, Latina, dita Católica, e a Igreja Oriental, Grega, dita Ortodoxa).

Por mais que os Protestantes, em especial em decorrência dos 500 anos do início da Reforma Luterana, em 2017, tentem erigir a Reforma iniciada na Alemanha por Martinho Lutero em principal marco divisório entre as Trevas e a Luz, a evidência histórica simplesmente não lhes dá razão. Ressalto os seguintes fatos.

Primeiro, do ponto de vista teológico, filosófico, político e cultural, as divergências entre, de um lado, as chamadas Denominações Protestantes Históricas (que representavam a chamada Reforma Magisterial, que incluía, no século 16, as igrejas luterana, anglicana, calvinista e outras ditas reformadas), que representavam a corrente majoritária e mais significativa da Reforma, e, de outro lado, a Igreja Católica Romana, eram mínimas, tendo que ver muito mais com detalhe do que com substância, com acessório do que essencial.

Segundo, desse mesmo ponto de vista, as divergências entre a Reforma Magisterial e a chamada Reforma Radical, que incluía os Anabatistas, os Espiritualistas, os Revolucionários Sócio-Políticos, os Radicais Teológicos (Unitários e assemelhados) eram bem maiores e muito mais significativas do que as que existiram entre a Reforma Magisterial e a Igreja Católica. Os radicais enfatizavam pluralismo, liberdade de consciência e de culto, a separação entre igreja e estado (queriam uma igreja totalmente separada e distante do poder político, que não era dominada pelo Estado nem tentava tutela-lo, para poder usa-lo como seu braço militar).

Terceiro, o que se viu, de meados do século 15 (1517, data das 95 Teses de Lutero) até meados do século 17 (1648, com o fim da Guerra dos Trinta Anos com a Paz de Westfália), foi conflito, foi guerra, foi perseguição, foi inquisição, foi prisão, foi execução, foi massacre, etc., não só de Protestantes por Católicos, e vice-versa, mas dentro dos domínios católicos e protestantes — neste caso, com exceção feita a segmentos da Reforma Radical que defendiam o pacifismo, a não resistência, o não envolvimento em atos patrocinados por agentes políticos, e que foram apenas vítimas, não perpetradores de violência. Os duzentos e poucos anos de meados do século 15 e a meados do século 17 viram muito pouca luz e iluminação, muito pouco esclarecimento. Viram, isto sim, o surgimento da Inquisição nos países latinos em sua fase mais feroz e violenta, viram a perseguição e a “conversão forçada” dos Judeus, viram o assassinato selvagem de Girolamo Savanarola, de Tomás Moro, de Ulrico Zuínglio, de Michel Serveto, bem como o afogamento cruel dos que reivindicavam a necessidade de um segundo batismo, além do tido na infância; viram o Massacre dos Camponeses (foi massacre, não foi guerra) na Alemanha, apoiado por Lutero, e o inacreditável Massacre de São Bartolomeu na França, perpetrado pelos católicos contra os huguenotes; viram a perseguição dos Arminianos na Holanda, viram a sangrenta Guerra dos Trinta Anos… Viram Lutero, excomungado pela Igreja Católica, banido do Sacro Império Romano, jurado de morte fora da Saxônia em que era protegido pelo Príncipe, por sua vez perseguir e caçar Andreas von Karlstadt, aquele que havia sido seu amigo, seu diretor, seu reitor, separando-o de sua mulher e de seus filhos… Viram Calvino e seus seguidores escorraçar de Genebra aquele que foi, talvez, o mais sensato e iluminado dos defensores iniciais da Reforma Protestante, Sebastião Castélio, apenas por pensar diferente e criticar a execução de Serveto. De perseguido, Castélio virou o grande defensor da liberdade de consciência e opinião, do pluralismo de ideias, da tolerância religiosa e política. Viram aquele que poderia ter sido o maior intelectual e maior santo do período, Erasmo de Roterdã, ser perseguido e difamado — por todos os lados, porque ele não achava nenhum lado totalmente certo ou totalmente errado.

Quarto, em especial no século 17 e começo do século 18, o que se viu, em boa parte dos arraiais protestantes, foram iniciativas e movimentos que ficaram conhecidos, de um lado, como Pietismo, Despertamento Espiritual, Avivamento, Entusiasmo, e, de outro lado, como Ortodoxia e Escolasticismo. Dos dois lados, que me desculpem os adeptos, Obscurantismo e Fanatismo, nenhum dos quais merece ser visto como parte, ou mesmo precursor de Lumière, Enlightenment, Aufklärung, Iluminismo, Esclarecimento

Os duzentos anos de 1453 a 1648 podem, no máximo, ser chamados de Período Pré-Moderno em decorrência da uma significativa evolução na educação, na ciência, nas letras, na filosofia, em grande parte decorrente mais da Invenção da Imprensa por um Católico do que das Reformas dos Protestantes.

Os cinquenta anos finais do século 17 são de transição: nele viveram John Locke e Baruch Spinoza (este apenas até 1677), que em muitos aspectos são elementos de transição.  Mas só.

Ao historiador fica até difícil explicar como, no século 18, de repente aparecem, David Hume e Adam Smith, nas Ilhas Britânicas, ambos escoceses; Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, nas Colônias Americanas que vieram a se tornar independentes, um na Pensilvânia, o outro em Virginia, os fundadores, respectivamente, da University of Pennsylvania e da University of Virginia; Montesquieu, Voltaire e seus amigos Philosophes, na França; Efraim Lessing e Emanuel Kant na Alemanha (este último famoso por seu mote, Sapere Aude, Ousem Saber, Não Tenham Medo da Verdade!)

De todos esses, pela amplitude e profundidade de suas ideias, pelo seu temperamento pacífico e pelo seu caráter amigo e solidário, bem como pelo seu precoce projeto de vida, concluído quando ele tinha no máximo 26 anos e revelado ao mundo quando ele tinha por volta de 27-28 anos, David Hume inegavelmente está no ponto mais alto. Se esses nomes todos caracterizam um Olimpo, David Hume é seu Júpiter.

O Iluminismo e a Modernidade devem quase tudo a esses no máximo 12 Discípulos da Razoabilidade e do Bom Senso — enfim, das Luzes.

Esse é o veredito de alguém que se orgulha de ser Filho da Modernidade e que nada tem em seu DNA de Pós-Modernidade.

Em São Paulo, 24 de Maio de 2019.

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