A Visão Filosófica de Bertrand Russell e o Ceticismo Mitigado de David Hume

Na Introdução ao seu livro A History of Western Philosophy, Russell propõe a seguinte conceituação de filosofia, na qual esta é contrastada com a ciência, de um lado, e com a teologia, de outro:

“A ‘filosofia’, no meu entender, é algo intermediário entre a teologia e a ciência. Semelhantemente à teologia, a filosofia consiste de especulações sobre assuntos, com respeito aos quais não foi ainda possível obter conhecimento definido. Mas semelhantemente à ciência, a filosofia apela à razão humana, e não a uma autoridade, seja essa a autoridade a revelação ou a tradição. Todo conhecimento definido, é a tese que defendo, pertence à ciência; todo dogma a respeito daquilo que jaz além do conhecimento definido pertence à teologia. Mas entre a teologia e a ciência há uma Terra de Ninguém que está aberta a ataques de ambos os lados: essa Terra de Ninguém é a filosofia” [1].

A primeira impressão que se tem ao ler essa caracterização da filosofia é que o problema é, na verdade, mais sério do que parecia ser! Russell não nos ajuda muito e parece nada mais dizer do que o que já sabíamos, ou seja, que a filosofia lida com questões vagas e indefinidas, que ela habita uma terra de ninguém (e, portanto, de todo o mundo), afirmando que em relação a essas questões não se deve esperar alcançar “conhecimento definido”, que só se encontra na ciência. Russell afirma que a teologia e a filosofia têm basicamente o mesmo objeto de estudo, diferindo apenas na maneira de abordá-lo, o método da filosofia tendo mais afinidade com o método da ciência do que com o método da (supondo que haja um método teológico) [2].

Embora não concorde com a proposta de definição de Russell, ela é útil como balizamento na clarificação de nossas ideias sobre o que seja a filosofia, pois chama nossa atenção para alguns pontos que precisam ser considerados em qualquer tentativa séria de definir a filosofia.

Em primeiro lugar, é interessante que Russell afirme que “a ‘filosofia’, no meu entender, é…”. Isso indica que Russell encara sua definição como algo pessoal: essa é a sua maneira de ver a filosofia. Em nenhum lugar no parágrafo ele afirma ou mesmo sugere que a sua seja a única maneira correta de encarar a filosofia, ou mesmo a melhor maneira [3]. Dito em outras palavras, isso parece significar que não se deve ter a pretensão de propor a verdadeira e correta definição de filosofia: quando muito, pode-se aspirar a formular uma maneira de encarar a filosofia, uma proposta de definição, uma definição em grande parte pessoal, estipulativa.

Em segundo lugar, as observações de Russell sugerem a necessidade de demarcar, tão claramente quanto possível, as linhas divisórias que separam a filosofia de outras atividades intelectuais que, pelo menos tradicionalmente, têm estado bem chegadas a ela, como, desde sempre, a teologia e, mais recentemente, a ciência. A constatação dessa necessidade é importante. A sugestão de Russell, porém, é bastante questionável. Ele sugere que a filosofia se distingue da teologia em relação ao método e da ciência em relação ao objeto de estudo, e que a filosofia se assemelha àquela no tocante ao objeto de estudo e a esta no tocante ao método. Embora Russell esteja levantando questões bastante interessantes aqui, é necessário que as coisas sejam mais bem esclarecidas. Por exemplo: será que o objeto da filosofia é realmente afim ao da teologia? Creio que não. E o método da filosofia, em que se distingue do método científico ? Além disso, até que ponto o método depende do conteúdo?

Em terceiro lugar, a razão de Russell para assumir a posição aqui externada está no seguinte comentário que faz à sua proposta de definição – as ênfases são minhas:

Quase todas as questões de maior interesse para mentes especulativas são tais que a ciência não pode respondê-las. Por outro lado, as respostas confiantes do teólogo não são mais tão convincentes como pareciam em séculos anteriores. [Segue uma lista de perguntas caracteristicamente filosóficas, que resumo em parte: O mundo contém realidades materiais e mentais? O universo tem um propósito, caminha na direção de alguma meta? Existem leis na natureza ou nós é que impomos regularidades à natureza? Há uma forma de viver que possa ser descrita como digna e nobre ou são todas as formas de viver igualmente fúteis? Existe algo que possamos chamar de sabedoria?] A essas perguntas nenhuma resposta pode ser encontrada em laboratórios científicos. As teologias têm pretendido dar-lhes respostas excessivamente precisas. Mas exatamente a precisão dessas respostas as torna suspeitas à mente moderna. O estudo dessas questões, mesmo que não se chegue a uma resposta, é o negócio da filosofia. […] Tenho uma atitude muito pessoal para com essa questão. A ciência nos diz o que podemos conhecer, mas o que podemos conhecer é pouco. Se nos esquecemos do quanto nós não conhecemos, nós nos tornamos insensíveis a muitas coisas da maior importância. A teologia, por outro lado, induz a crença dogmática de que temos conhecimento quando de fato só temos ignorância, e, ao fazer isso, produz um certo tipo de impertinente insolência para com o universo. Incerteza, na presença de vívidos temores e esperanças, é algo doloroso, mas é tudo que temos, se desejamos viver sem o apoio de contos de fadas confortantes. Não é bom nem esquecer as perguntas que a filosofia faz, nem nos convencer de que encontramos respostas indubitáveis para elas. Ensinar como viver sem certezas, sem, contudo, se deixar paralisar pela hesitação, talvez seja a principal coisa que a filosofia possa, em nosso tempo, ainda fazer para aqueles que escolhem estuda-la[4].

Essas palavras são belas, e posso endossá-las, em grande medida e até certo ponto. Elas nos explicam por que Russell foi levado a definir a filosofia como o fez. Ele quer que a filosofia procure responder às perguntas às quais a teologia tem tentado dar respostas — por isso diz que o objeto da filosofia é afim ao da teologia. Mas ele quer que a filosofia faça isso usando métodos semelhantes aos da ciência, e está convicto de que métodos desse tipo não vão fornecer respostas indubitáveis – donde sempre a incerteza.

Em quarto lugar, Russell sugere que, no que diz respeito ao método, a filosofia, como a ciência, “apela à razão humana”, utiliza um método racional. Os termos “razão”, “racional”, etc. andam muito desgastados, ultimamente. O que é que caracteriza o apelo à razão, o que torna um método de investigação um método racional? Russell não nos esclarece — pelo menos no contexto da definição de filosofia.

Vamos ter de explorar um pouco mais o assunto.

A segunda citação de Russell me faz lembrar de uma memorável entrevista que Larry King fez de Billy Graham em seu programa de entrevistas, “Larry King Live”, na CNN. Ao final, King perguntou a Graham se este queria dizer mais alguma coisa. Graham disse que gostaria de fazer lhe uma pergunta. Indagou dele o que ele pensava acerca da religião e da teologia. A resposta de King fui curta e grossa: “Sou fascinado pelas questões para as quais a religião e a teologia procuram respostas, reverendo, mas até hoje, infelizmente, não encontrei uma resposta sequer que me convencesse em nenhuma religião ou teologia” (cito de memória).

Como a teologia, a filosofia é excelente ao fazer perguntas, mas deixa muito a desejar com suas respostas…

A segunda citação de Russell também me faz lembrar de David Hume e seu “ceticismo mitigado”.  David Hume preparou o terreno para que Russell, por muitos considerado “O Hume do Século 20”, dissesse que somos condenados a “viver sem certezas, sem, contudo, nos deixar paralisar” pelas incertezas.

Notas

[1] Betrand Russell, A History of Western Philosophy (Simon and Schuster, New York, 1945, 1967), p.xiii.

[2] Cf. Israel Scheffler, A Linguagem da Educação (Editora da USP e Saraiva Editores, São Paulo, 1974).

[3] Na verdade, na frase que antecede a definição proposta, Russell afirma: “‘Filosofia’ é uma palavra que tem sido usada de várias maneiras, algumas mais amplas, outras mais restritas. Proponho usá-la em sentido bastante amplo, que agora tentarei explicar” (op.cit., p.xiii).

[4] Russell, op.cit., pp. xiii-xiv. A passagem de Russell, com sua referência a “temores e esperanças”, me faz lembrar de Hume, que afirma, em seu livro A Natural History of Religion (1758), que a religião (na trilha da qual a filosofia foi criada) se origina nos sentimentos de “fear and hope”, nos temores e nas esperanças que orientam a nossa vida. Vide a esse respeito minha Tese de Doutoramento, David Hume’s Philosophical Critique of Theology and its Significance for the History of the Christian Thought (University of Pittsburgh, 1972), capítulo IX, pp.556-601.

Em São Paulo, 10-11 de Maio de 2019. (Revisão de texto escrito nos anos 1990).

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